Na sequência das publicações com a temática relacionada a arquitetura moderna em Curitiba, vamos tratar dessa vez dos projetos do arquiteto curitibano João Batista Vilanova Artigas por aqui. Apesar de ter nascido na capital paranaense em 1915, o arquiteto teve maior prestígio em São Paulo, sendo considerado um dos principais expoentes da chamada “escola paulista”. Em Curitiba, muitas das encomendas de projetos viriam a partir de contatos familiares e com isso, acabou construindo obras de maior porte no Estado somente em Londrina, cidade natal do arquiteto Carlos Cascaldi, que viria a ser seu sócio e que juntos realizaram inúmeras obras, inclusive o projeto do edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (1961).
Enfim, a ideia desse texto é documentar os prédios projetados pelo arquiteto em Curitiba. Se tratam de três edifícios, dois destinados a área da saúde e um edifício de escritórios no centro da cidade. Portanto, Artigas acabou não projetando nenhum edifício residencial e tampouco de caráter público por aqui.
A primeira obra é o Hospital São Lucas, localizado na Avenida João Gualberto 1946, Juvevê. O projeto que data de 1945, foi concebido para ser uma referência curitibana na área da medicina. Ficou marcado pela história da “carta ao cliente”, escrita por Artigas ao cliente responsável pela contratação como uma forma de convencimento para contratar o arquiteto na resolução do projeto. Além disso, é uma das primeiras obras após a ruptura da sociedade com Duilio Marone. Também é o período que marca o início da considerada “segunda fase” da obra do arquiteto, com projetos que viriam a ser projetados posteriormente como o Edifício Louveira (1949) e a segunda Casa do Arquiteto (1949).
O projeto segue os princípios que iriam acompanhar sua obra nesse período. A implantação é organizada em duas barras paralelas que são unificadas por um volume de rampas que conectam os pavimentos em meios níveis. A volumetria gerada por essas barras acaba conformando um volume apoiado sob um embasamento em pedra e tijolo aparente, onde estão localizadas áreas de apoio ao hospital. O edifício segue até hoje em funcionamento e recebeu algumas intervenções e a construção de anexos.
Fotografia do Hospital São Lucas (Acervo Vilanova Artigas)
Perspectiva do Hospital São Lucas em Curitiba (Acervo biblioteca FAU-USP)
Artigas retorna a sua cidade natal 14 anos depois para projetar outra obra de grande porte, um Edifício de escritórios em frente à Praça Osório no centro da cidade. O projeto é organizado por um embasamento com uma galeria comercial e uma torre em lâmina que abriga os pavimentos para escritórios. No encontro dos dois volumes, os pilares da torre sofrem algumas transições e geram um pilotis em “V”, estratégia que pode ser encontrada na obra de Oscar Niemeyer. Devido a sua altura, a fachada frontal para a praça era marcada por uma grelha em concreto armado que evidenciava as linhas verticais e nas fachadas longitudinais suas proporções são horizontalizadas pelo uso de panos de vidro. O projeto foi elaborado até a etapa de anteprojeto e acabou não sendo construído. O terreno atualmente é ocupado pelo Edifício Ana Cristina.
Perspectiva do Edifício de escritórios em Curitiba (Acervo biblioteca FAU-USP)
O terceiro projeto que vamos apresentar é o Centro médico Dr. Giocondo Vilanova Artigas (que era irmão do arquiteto) e Dr. Affonso Antoniuk, localizado na Rua Alcides Munhoz em frente ao Hospital Nossa Senhora das Graças, projeto do arquiteto e engenheiro Elgson Gomes. Realizado em 1975, portanto 30 anos após o projeto do Hospital São Lucas. Também tem o partido organizado por um embasamento que conforma um platô e a torre prismática que parece flutuar sob o podium. A estrutura do prisma é apoiada somente em seu núcleo de circulação vertical que conforma um único pilar central de onde partem as lajes nervuradas que o circunvalam e tem suas aberturas vedadas por panos de vidro. O projeto foi elaborado até a etapa de anteprojeto e acabou não sendo construído. O terreno atualmente é ocupado por um estacionamento.
Elevação do Centro Médico em Curitiba (Acervo biblioteca FAU-USP)
Apesar de ter passado boa parte de sua carreira fora do Paraná, Artigas influenciou direta e indiretamente nossa arquitetura. Seja pelos professores que vieram de São Paulo, foram contaminados por seu pensamento e vieram formar o grupo que deu início a escola de arquitetura em Curitiba, ou diretamente pelas suas obras. Atualmente, além do Hospital São Lucas, temos somente mais duas obras do arquiteto na cidade. São elas: Casa Bettega (1949) e a Casa Niclewicz (1978), as duas em excelente estado de conservação e que passaram por um processo de recuperação das suas características originais recentemente. As demais obras do arquiteto foram demolidas ou não foram construídas. O trabalho de mestrado do prof. Roberto Fontan cataloga e documenta todos os projetos de Artigas em Curitiba.
Fontes:
FONTAN, Roberto Tourinho. A arquitetura de Vilanova Artigas no Paraná: os projetos em Curitiba, Ponta Grossa e Caiobá (1942-1978). Dissertação (Mestrado). Faculdade de Arquitetura – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2014.
Fotografias:
Acervo Vilanova Artigas
Biblioteca FAU-USP